terça-feira, 14 de outubro de 2014

Nariz vermelho no sertão de Quijngue (BA)



Inaugurada em 23 de julho de 2014, a Biblioteca Comunitária de Lagoa da Barra localiza-se na área rural de Quijingue, próxima a Canudos de Antônio Conselheiro e distante 362 km de Salvador. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), esse município apresenta o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado da Bahia. A iniciativa de leitura partiu da sul-coreana Jeong Amanda Lee, voluntária da ONG Humanas do Brasil, preocupada com as reduzidas opções de lazer e perspectivas da infância no povoado. Sem recursos para montar o acervo, contou com a liderança em São Paulo de Lincoln Paiva, fundador do Instituto Mobilidade Verde, para coordenar doações, metodologia e parcerias com a Fundação Pedro Calmon (Governo da Bahia), Translig/Bicicloteca e a Prefeitura quijinguense, entre outros.

Visitei a catinga para acompanhar a entrega e novo uso do imóvel que antes abrigava uma unidade do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), ligado ao Ministério do Trabalho e Emprego. Segundo o IBGE, o Brasil ainda tem 3,7 milhões de crianças e jovens de 5 a 17 anos envolvidos em atividades domésticas, informais (urbana ou rural), ilícitas ou de exploração sexual (G1, 2013).

O primeiro dia, véspera da abertura, serviu para conhecer a zona urbana da cidade, a escola no campo, o prédio recém-reformado do PETI, as equipes envolvidas na montagem do acervo de mais de 2.000 obras e habitantes da comunidade.

A manhã seguinte foi dedicada a ouvir as crianças e conhecer seus hábitos, repertório e imaginário, ainda sem estar caracterizado como palhaço. Por meio de jogos teatrais para ativar a conexão entre pessoas (“mãe da rua” e “roda de zap”) descobriu que, além do desejo quase unânime de videogame entre as crianças de seis e nove anos, havia também o interesse em jogos de palavras com piadas e charadas. Na parte da tarde, vesti meu figurino e  coloquei nariz vermelho para realizar uma intervenção na forma de cortejo. Andei da escola até o “novo” prédio para comunicar a mudança de nome do edifício “garrafa pet” (paródia criada com a sigla PETI) para “Biblioteca de Lagoa da Barra”. Na ocasião, decidi usar como instrumento um peixe de pano, atado a uma vara de pescar, chamariz e metonímia ridícula para homenagear o nome do povoado. Na outra mão, um livro de piadas e charadas a ser doado ao fim da caminhada. Ainda como clown, participei em seguida de atividades como “desenhe seus desejos no papel”, comi doces distribuídos na abertura pela bibliotecária e falei sobre as novas instalações em uma cerimônia organizada pela sociedade local.

O período da noite serviu para observação, já sem a menor máscara do mundo, dos festejos e apresentações locais, como quadrilha e forró, além da participação em um culto religioso. O pastor João Batista, ex-guerrilheiro paulista reconhecidamente perseguido pela ditadura de 1964, agradeceu aos envolvidos no projeto, legitimou a “boa nova” e passou a palavra aos moradores e visitantes, antes de completar a cerimônia. Neste caso, Sérgio Miceli comenta a necessidade levar em conta o que concorre com o tempo do “consumidor de cultura” e a prática religião representa ponto importante de mediação social, atividade cultural e potencial aliado na transformação social.

Ainda não houve tempo para afirmar que houve alteração efetiva de hábitos de leitura em Lagoa da Barra, porém, em relação à implantação de projeto cultural com apoio de palhaço, a descoberta do estudo foi a adesão facilitada às atividades propostas pelo autor, respeito pelo clown e seus adereços - o peixe de pano acabou  integrado à entrada da Biblioteca. A receptividade foi duradoura, fui saudado por adultos e abordado por crianças mesmo horas após a retirada da própria maquiagem.

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Pelo caráter transgressor, o profissional da bobagem tem condições de complementar o ensino, oferecendo contrapontos à autoridade pedagógica, leituras obrigatórias e programas escolares. Seus efeitos indutores geram subsídios para a abertura de novos espaços de diálogo e reflexão, com vistas a diminuir as distâncias informacionais e ampliar repertórios. Obras ativadas com humor, em vários graus de leveza, crítica e subversão, evidenciam limites psicológicos e sociais, criam novos sentidos a quem assiste e/ou participa das apresentações lúdicas.

As maiores colaborações se encontram em facilitar, de modo simples, o contato das histórias impressas com os saberes existentes e também os criados no momento do encontro, por meio de escuta sem cerimônia, fetiche ou barreiras de espaços tradicionais, catalisando a imaginação e a fantasia com autonomia, respeito e responsabilidade. Em princípio, assim como o riso, as escolhas afetivas de leitura não se impõem ao respeitável público.